16 abril, 2007

Contra-ataque...



CONTRA-ATAQUE

Mais um dia, e lá está Marina pronta pra ir trabalhar.
Olhando-se no espelho confere tudo.
É um ritual diário que segue há alguns meses, na verdade a quase um ano.
Roupa, maquiagem, batom... perfume.
No início era uma roupa mais ‘transadinha’, maquiagem normal pro trabalho o perfume de sempre.
Nada
Depois uma blusa um pouco mais decotada, um pouco mais de rímel.
Nada.
Saia um pouquinho mais curta, botas mais insinuantes, um pouco mais de decote. Boca marcada. Perfume.
Um olhar. Quase êxtase.
Finalmente arrancara um olhar dele. Ele? Diogo.
Sabe-se lá o que Marina viu em Diogo. Mas era pra ele que todos os dias o ritual acontecia.
É. Diogo o ‘carinha-boa-pinta’, jeitinho de intelectual. Gente boa. Certinho das idéias. Com seus olhos cor-de-mel e sua voz suave. E pelo visto tímido mais que uma porta. Será?
Bom, mas ele olhou.
Ela sentiu-se no céu. Aquele olhar de canto de olho valeu toda a produção e teria valido por dias, se por acaso não tivesse sido um olhar único.
— Mas que *&@#%!*¨#$, pensou Marina. O que há de errado comigo? Vou precisar pular no pescoço dele e dizer que estou interessada?
Dias seguiram. Novas produções. Novo corte de cabelo. Umas blusinhas mais ‘coladinhas’. Muitas botinhas. Rimel, lápis, batom, lentes de contato (vai-se saber se não eram os óculos que atrapalhavam?).
Marina esforçava-se por passar na mesa de Diogo. Dar-lhe “bom dia – boa tarde – boa noite”.
E ele simplesmente respondia, algumas vezes de cabeça baixa mesmo.
Um dia, a oportunidade perfeita. Um ‘happy hour’ com a turma do escritório.
Marina caprichou, no perfume principalmente. Queria saber de uma vez por todas se Diogo não a achava atraente em nada.
Todos no bar. Marina esforçando-se por ser desenvolta, rindo, olhando Diogo que estava rindo, mais contido. Bebia alguma coisa que Marina não sabia o que era. Esperava ser algo forte. Sabe-se lá.
Passou por ela. De momento ela achou que deveria inclinar-se pra ele, devia ser a hora, o momento... Já... Já??? Não conseguiu. Desistiu. Não devia mesmo ser o tipo dele. E se tiver namorada fora do escritório? E se ele for gay? Será? Um rubor tomou conta de Marina naqueles pensamentos de uma fração de segundo. Vai ver simplesmente ela não era o tipo dele. Voltou-se para o bar. Ele passou.
Tão rapidamente voltou-se que acabou derrubando a bebida de alguém que sentara do seu lado. Pediu desculpas. Que bagunça fizera.
O moço do seu lado riu e disse que estava tudo bem.
Secou-se com o guardanapo. E estendeu-lhe a mão com um sorriso largo. Seu nome era Marco Antonio.
Marina riu sem graça, era o mínimo que poderia fazer depois da bagunça que aprontara.
Apresentações feitas, ela sentia-se menos desconfortável com o ocorrido, tamanha era a simpatia de Marco Antonio. Riram, falaram um pouco de tudo. A noite parece que passou mais rapidamente. Hora de ir.
Marco Antonio não pensou duas vezes. Ofereceu-lhe carona. Ela, sim, hesitou. Disse que não precisava, estava com algumas amigas. Ele pegou-lhe a mão e disse suavemente ao seu ouvido:
— Não faria isso comigo, não é? Sair assim sem me dar a chance de poder reencontrar você? Jamais poderia esquecer esses olhos tão lindos, essa boca tão bem marcada e esse seu perfume que me fez até perder a noção, que já não sei quem derrubou a bebida, você ou eu mesmo só pra que você me desse um pouco de atenção.
O chão parece que escapou aos pés de Marina. Seria isso mesmo possível?
Ela deu um riso muito sem jeito. Disse que era bondade dele. Mas não pode deixar de sentir um tanto de orgulho de si mesma.
Olhou-o nos olhos e aceitou a carona.
Despediu-se das amigas e saiu sendo escoltada por Marco Antonio.
Diogo? Ah, Diogo havia ido ao banheiro, molhar o rosto. E em frente ao espelho tinha feito uma promessa.
— De hoje não passa! Vou dizer a Marina que gosto dela. Não é possível que não consiga vencer essa minha timidez.
Ao voltar, viu-a conversando animadamente com o estranho e acabou sendo vencido. Sentou-se e fez o que mais sabia fazer: Olhar Marina de longe, sem deixar que ela percebesse.

por Cau Alexandre



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Paralamas do Sucesso -
Ela disse adeus

6 comentários:

  1. Por causa dessa e outras situações é que sou a favor da sinceridade nua e crua.
    A vida é imprevisível e breve para que percamos tempo com essas dúvidas que nos congelam e limitam. Não podemos deixar que os nossos medos e dúvidas, tenham um poder maior que os nossos desejos.
    Existem muitos Diogos, Marinas e Marco António nesse mundo. Exemplos de pessoas que lutam pelo que querem, e de outras que esperam a vida acontecer e as coisas cairem do céu.
    Prefiro a dor de bater com a cabeça na parede, do que aquele "se" perturbador que fica sobre o que poderia ter sido, mas simplesmente não houve chance.

    Beijinho Cau

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  2. Amada!!!

    Argh...estes "Diogos" depois ficam chorando pitanga. rsrs

    Quero um Marcão destes..(ó minha intimidade)homem decidido, sabe o quer ..aimopai..mesmo q seja um ... sabe d q to falando...rs

    To saudade de vc :(

    Te amo...beijos

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  3. Viximaria.
    Isso que dá deixar a gazela solta às feras...=P
    Neguinho fica fazendo muita frescura, quem manda.
    Quando se quer alguém, o melhor a fazer é ser bem claro e objetivo.
    Apenas para saber se esse alguém o quer também.
    E, se não quiser, que ele vá catar coquinhos.

    Você está escrevendo divinamente, me orgulho de você. =)

    Smack!!!

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  4. Aiai.... tímido é o que eu não sou.. não sou mesmo..hehe
    Mas confesso, já fui "Diogo".. não sou mais.

    ;)

    bjo grande, estava com saudd.

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  5. da vida se fez sonho que floriu em beijos embrulhados em abraços.

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  6. Passando pra agradecer as palavras doces/descobertas.

    Não li o texto todo. To aperriado aqui.
    Prometo comentar mais tarde algo sobre Marina, sobre Cau, sobre Raimundos.

    Abraços e agradecimentos, sempre!

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